terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Dente da Girafa


Chegou o grande dia. Teresa finalmente vai casar com um lindo mancebo. Pedro. Bem situado na vida e elegante, lá vem o noivo, com seu fraque eum lenço no bolso. Dentro daquele bonito lenço porém, há um segredo escondido. Todo mundo traz um segredo, nem sempre no bolso, muitas vezes no coração. Este segredo estava apenas no bolso e no passado de Pedro. Qual seria? Deixemos o casamento rolar, que isto vai por si só se esclarecer.
Agora, vai entrando a noiva com seu pai e, logo a seguir as damas de honra. Quando o noivo vê uma das damas de honra, ele fica gelado de pálido, tudo porque a dama de honra que estava prevista foi substituída por outra, e ele não fazia ideia que a melhor amiga de infância e que ela tinha perdido contato, era justamente a Maria Helena, que tem tudo a ver com o segredo que ele esconde dentro do lenço.A mesma Maria Helena que ele havia conhecido quando adolescente num lugar bem distante dali alguns anos atrás.
Tudo começou quando Pedro foi participar de um safári na África. Ele queria ver finalmente uma girafa em seu habitat natural, como tantas vezes ele já havia visto nos episódios que ele assistia no mundo animal. Foi lá que ele aprendeu que as girafas são seres muito diferentes. São os animais mais altos do mundo. Nisto, tanto ele como Maria Helena se pareciam, pois eram muito altos. Já Teresa, a noiva, era baixinha.
Por outro lado, as girafas dormem em pequenos cochilos e ficam em pé quase o tempo todo.
Nisto também são parecidos Maria Helena e Pedro quase nunca dorme, ao contrário de Teresa  que dorme muito.
As girafas, apesar de serem muito altas correm muito rápido podendo atingir quase 70 quilõmetros por hora, no que se parecem muito com Teresa que, apesar de ser baixinha, foi campeã de 100 metros rasos nos jogos universitários.
Reza uma lenda africana que a troca de dentes girafa, quando acompanham uma jura de amor no dia em que a mulher perde a virgindade, possui grandes poderes. Tem o poder de realizar qualquer desejo.
Pois não é que Maria Helena era guia no safári? Durante o safári, eles se envolveram e acabaram fazendo juras de  amor, tiveram sua primeira relação sexual em que Maria Helena perdeu sua virgindade, e se ´prometeram  casar um dia e serem felizes. Tudo isso acompanhado de troca de destes de  girafa, como havia sugerido um feiticeiro dias atrás.
Quando acabou o safári, os dois de separaram e Pedro esqueceu Maria Helena, mas não do dente. E Maria Helena esqueceu do dente de girafa mas não de Pedro,
Passados os anos, Maria Helena nunca tivera notícias de Pedro, Tinha o dente guardado no fundo do baú e não se lembrava deste pequeno detalhe. Não acreditava na lenda. Mas lembrava de todo o resto, do seu romance com Pedro, das juras de amor, de prometerem se reencontrar já com as vidas feitas e se casarem, terem filhos e serem felizes.
Pedro, por outro lado, rapidamente esqueceu Maria Helena. Mas trazia sempre guardado em um lenço o dente de girafa e, sempre que tinha uma dificuldade, o dente de girafa o assistia.. Foi assim que cresceu na vida, se tornou bem sucedido, hoje estava rico. Era hora de casar e constituir familia, Nem pensou em suas promessas ou em Maria Helena. Ela fora apenas uma aventura de férias, nunca levou isso a sério. Não sabia que não se podia prometer e descumprir para uma moça apaixonada. Não sabia também, e esta era uma parte da lenda que ele havia esquecido ou não prestara atenção quando o feiticeiro o alertou, que o demônio ou entidade que era invocada pelas juras de amor quando da cerimônia da troca de dentes de girafa, não perdoava o descumprimento das promessas e, caso isso acontecesse, ela viria depois cobrar.
Dias atrás, qual não foi a surpresa para Maria Helena, quando sua antiga amiga de infância, disse que ia casar e a convidou para ser dama de honra em lugar de uma outra amiga que tivera que viajar repentinamente. Ainda maior foi sua surpresa quando viu estampado no convite o nome de Pedro. Na carta, Teresa havia incluido uma foto de seu noivo. Não havia dúvida, era o mesmo Pedro por quem continuava apaixonada.
Agora era chegado o dia do casamento e lá estava Pedro, com seu fraque e com seu talismã secreto o dente de Girafa. Teresa sorrindo, Maria Helena escondendo o choro, Pedro apertando o seu dente de girafa. Antes de vir para a igreja, Maria Helena finalmente lembrara do dente de girafa, procurou e achou no fundo do baú onde o havia deixado. De uma hora para outra, lembrou-se da lenda e de que a voto descumprida conferia poder a talismã de propiciar a vingança do amor traído.
Como soube que Pedro melhorara muita de vida depois de sua aventura na África, ela supôs que o talismã fora responsável pelo sucesso, mas o outro dente de girafa que nunca fora usado ainda esta novo, com sua fonte de poder ainda intacta.
Esclarecidas as coisas, voltemos ao momento do casa que ensejou esta retrospectiva. Na hora do casamento ante o espanto de Pedro, Maria Helena invocou o dente e pediu que acontecesse alguma coisa com o vestido de noiva, que ele levantasse. Um vento forte soprou um vento muito forte mesmo, soprou e levantou o vestido de noiva, A noiva, desesperada, tentava controlar o vestido, mas o vento era mais forte. O vestido subiu e subiu e subiu muito alto, Agora todos já podiam ver, em todo esplendor, a calcinha, o sutiã e o rosto vermelhos de Teresa. Maria Helena, muito feliz, pediu que o vestido queimasse. No mesmo instante, o vento fez uma vela cair sobre o vestido de Teresa, e o vestido ardeu rapidamente. Pedro, desesperado,  correu para acudir e tirar o vestido, ao mesmo tempo que tentava apagar o fogo. Teresa urrava de dor pelas muitas queimaduras que havia sofrido. Maria Helena pediu ao dente que Pedro perdesse o seu dente de girafa para sempre. Em meio ao combate as chamas, o lenço de Pedro caiu de seu bolso. Outra pessoa que tentava também ajudar, pisou em cima do lenço e na mesma hora, o dente se partiu em mil pedaços, virando poeira.
Maria Helena, satisfeita, saiu e fez ainda um último pedido. - Que o teto desabe e o dois noivos morram... Sentenciou.




quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Giz e as Borboletas Azuis

O novo professor de matemática era sério, mas bonitão. As moças ficaram logo encantadas, especialmente Regina. Ela era uma aluna mediana que não gostava muito de matemática, mas com aquele professor ela começou a se interessar. Nunca antes quisera saber de logaritmos, trigonometria ou álgebra, apenas de batom, maquiagem e roupas sexys. Aquilo tudo de matemática parecia uma grande embrulhada. Mas a voz do professor, profunda e máscula, lhe mexia as entranhas, provocava sua libido, atiçava até quem diria, a sua curiosidade.
Começou a se interessar pelas coisas da matemática que de uma embrulhada passou a ser o código que regia o mundo. A música, aprendeu agora, que tanto lhe embalava o espírito, era uma tradução daquele código antigo, como uma simbologia druídica que animava os seres vivos e não vivos.
O que Regina não sabia é que tinha um grande admirador secreto logo ao seu lado. O estranho Paulo, que não desgrudava os olhos da menina. Ele achava nela tudo de atraente e encantador, mas nunca revelara nada a ninguém. Não se achava merecedor, mas mesmo assim sonhava e todo mundo pode sonhar sem ser interferido desde que mantenha seu sonho só para si. 
Mas, coitado, não havia nascido com atrativos e as moças não davam bola para ele. Os outros meninos também não gostavam dele. Ele sabia disso e por isso não se atrevia a se declarar para Regina. 
Todo dia, ele acordava cedo e se aprontava antes dos outros para ir observar a menina ir para a escola.
Ficou com um verdadeiro ódio quando percebeu que todas as atenções dela se concentravam no professor. Lhe causava mais ódio ainda o fato de ele adorar matemática e ela odiar e, também, a mania que ela tinha de pegar o giz que o professor usava durante a aula e guardar na bolsa. Todo dia ela pegava um giz e colocava na bolsa. Para que ele não podia adivinhar e justamente por isso ele detestava aquele hábito.
Um dia, cismado com a mania de colecionar giz usado pelo professor, pensando que, talvez, o giz fosse para ela um elemento erótico, percebeu que uma borboleta azul o seguia. Ele sentou num banco de praça e percebeu que a borboleta pousou em seu ombro. Ficou observando a borboleta, mas não a conseguia ver pois só conseguia ver Regina. Ali estava, a sua disposição, em todas as suas cores o esplendor natural de uma borboleta, que por qualquer motivo desconhecido o confundira com uma flor. O mundo todo rejeitara Paulo, mas Paulo rejeitara a borboleta porque não conseguia ver nada além de Regina e o professor de matemática, as fontes de todo o seu amor e ódio. Talvez a borboleta azul fosse atraída exatamente o que rejeitavam os humanos.
A borboleta o seguiu o dia todo, mas ao final da tarde encontrou uma flor onde pousou e desistiu de Paulo. A partir desse dia, sempre havia uma ou mais borboletas por perto de Paulo, mas ele deixou de repara nisso.
Regina, por sua vez, chegava em casa, olhava para o seu giz e imaginava ele todo cheio do cheiro do professor. E imaginava-se perdendo em seus braços, misturando seu corpo ao dele.
Ela começou a segui-lo. Não percebeu que por sua vez era seguida. Um dia, o viu entrar em um café. Ela se decidiu e entrou em seu caminho, dando uma trombada e caindo em seus braços. Seus olhos, fingindo surpresa e esbanjando sedução, pousaram nos olhos  do professor e este se sentiu fortemente atraído. Não era para menos, Regina nascera com aquele encanto que deixa os homens desarmados. Ele pediu desculpas e a convidou para tomar uma café. Em pouco tempo estavam conversando como velhos conhecidos. Ela e o professor esbanjavam tudo que tanto faltava a Paulo. Não demorou e ele a convidou para sua casa. O que lá aconteceu não foi conhecido mas adivinhado por Paulo, que não parava de os seguir. Ele fotografou tudo. Eles se encontrando no café, conversando, entrando na casa do professor, saindo horas depois com um sorriso de felicidade no rosto. Sim, Tinha sido a primeira vez de Regina, Enfim, seu primeiro homem. E ela ficou completamente apaixonada. Ele, nem tanto, Era só mais uma. Era casado e aproveitara o fato da esposa estar viajando para dar uma fugida e, apesar de Regina ser linda, ele não queria comprometer sua vidinha arranjada e pacata.
Paulo, morrendo de ódio, levou as fotos para a diretoria. A diretoria, ao saber do acontecido, convocou o professor e o demitiu, 

Regina, ao saber que o professor sido demitido e havia mudado de cidade, entrou em desespero. Dois dias depois, foi encontrada morta, abraçada a  um saco cheio de pedaços de giz molhados por uma substância que depois constataram provir de lágrimas. 

Nunca mais ouviram falar de Paulo. 
Um ano depois, quando ninguém mais lembrava da tragédia, uma garota desapareceu da escola. Encontram-na dias depois na mata, seu corpo nu e sem vida na floresta. A arma do crime, sua calcinha e sua bolsa foram mais do que suficientes para incriminar o zelador da escola, apesar deste alegar não saber como aquelas coisas foram para ali. Ninguém reparou que a vítima era muito parecida com Regina e seu corpo fora encontrado coberto de borboletas azuis.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017


Sergisvaldo era assim desde menino. Com seu olhar, dominava a todos. Os pais, os amigos, os professores, adultos, velhos e crianças morriam de medo daquele olhar. Ele se acostumou com aquilo e obtinha tudo que queria com um simples olhar. Seu olhar era uma ordem e pronto. Nunca ninguém havia tentado descobrir o que aconteceria em caso contrário.
Sempre foi assim, até conhecer Marisnalva. Ela tinha o olhar ainda mais poderoso, pelo menos para ele. Ela também foi a primeira a contestar seu olhar e a sua primeira mulher de verdade também. Foi amor a primeira vista e foi a primeira vista que ele se entregou  aos seus comandos. Se casaram em pouco tempo.
Ele obedecia e tinha medo. Ela o surrava vez por outra com um terrível chicote e ele simplesmente não conseguia reagir àquele olhar. El,e que de mandão virou submisso, de lobo se viu transformado em cordeiro,  aguentou aquela situação apenas por algum tempo. Um ano e meio, para ser mais exato.
Um dia, quando ele quis de verdade realizar uma fantasia sexual e Marisnalva não o permitiu, apesar de suas insistência e apesar de ele nunca ter se recusado nada a ela, por mais estranho e humilhante que fosse. Não só recusou como acabou o surrando com o chicote e enchendo suas costas de lanhos sangrentos, e o amor se transformou em ódio, na mesma intensidade só que ao contrário.
Ele decidiu que só tinha um jeito. Era matar Marisnalva ou se condenar a submissão por todo o sempre. Ficou com a segunda opção, é claro.
Ele deixou um facão sob a almofada do sofá. Não havia perigo dela descobrir pois ele é quem arrumava a casa. Isto ela deixou claro desde o princípio. Mas, chegado o momento dele executar seu plano, aproveitar que ela estava distraída e golpeá-la pelas costas, ela se virou e o fuzilou com seu olhar mais indiscutível e ele recuou e desistiu como sempre.
Num primeiro momento, ele desistiu da ideia, mas depois descobriu por acaso que ela o estava traindo com outro homem e resolveu-se novamente a enfrentá-la. Mas, para isso, primeiro precisava treinar. Talvez, se se acostumasse a matar, enfrentasse a situação e se acostuma-se a ela, talvez não recuasse numa outra tentativa. Resolveu começar com alguma vítima ao mesmo tempo aleatória e indefesa.
Uma criança. Porém as crianças tem pais. Mesmo assim, é um bom começo, não tem força nem experiência para se defender.
Foi ao parque. Os brinquedos ficam ao lado de uma floresta. Um lugar muito estratégico. Observou o parque a procura de uma mãe distraída. Havia uma que deixava sua filha a vontade, enquanto lia. Durante uma hora, apenas uma vez foi verificar como estava a filha. Depois, continuou lendo. Ele atraiu a menina oferecendo um pirulito. Foi a chamando em direção a floresta. Lá chegando, viu a criança a sua disposição. O seu lindo pescocinho a disposição para ser esganado. Mas, que nada. Sergisvaldo ficou com pena. Pensou consigo - O que é que estou fazendo? Matar uma criança ? Que covardia. Deixou a criança ir.Foi seu primeiro fracasso.
Da segunda vez, resolveu atacar uma velhinha. Sim, uma velhinha seria uma boa. Indefesa, já viveu bastante e tem pouco por viver. Como treino seria legal.
Soraia, tinha oitenta e dois anos. Foi sua primeira vítima. A coitadinha mancava e não enxergava bem e, por isso, não pode oferecer muita resistência. Para começar foi bom. A velhinha gostava de passear com seus gatos à noite e fio fácil surpreendê-la numa viela escura e solitária, dessas que existem em quase todos arrabaldes pobres das cidades.
Da terceira vez foi mais ousado. Acompanhou um rapazinho por dias, estudou seus movimentos. Viu que ele era calado e solitário e, por isso, sofria bulying dos colegas. Não tinha amigos e gostava de buscar os caminhos mais longos e solitários tanto para ir para a escola como para voltar para casas. Era claro que o menino não se sentia feliz nem em casa nem na escola, ou seja, não era feliz em lugar algum. Começou a encontrar um sentido nas coisas que estava fazendo. Matar aquele rapaz seria livrá-lo de um peso. Sentiu orgulho e percebeu que começara a gostar do que estava fazendo, esquecendo por completo das muitas vezes que humilhara seus colegas na escola quando ainda era um menino. Desta vez, ao praticar seu ato atroz, não sentiu nojo. Teve até prazer no que fez. Em seu delírio chegou a ver gratidão nos olhos que na verdade expressavam pavor na hora da morte.
E aí foram muitas vezes, muitos assassinatos. Ele foi para as manchetes dos jornais - Assassino em série atava de novo. E foi ficando viciado em matar. E foi adiando seguidas vezes o assassinato que no inicio serviu de pretexto para ele se tornar o que era. Um psicopata cruel que sente prazer no sofrimento dos outros.
Porém não praticara todos aqueles assassinatos. Pois não é que um outro assassino lhe seguia os passos e imitava seus métodos. Boa parte dos assassinatos não fora ele que cometera, mas outro ou, quem sabe, outros assassinos que atuavam na região. Este outro era até mais cruel, pois sempre deixava sinais de ter torturado a vítima o que causava mais horror. 
Finalmente, já se sentia seguro para concluir seu plano, ou seja, assassinar a mulher. Ele já se sentia forte o suficiente para enfrentar aqueles olhos dominadores.
Entrou decidido foi procurar debaixo da almofada do sofá onde havia  escondido o facão com que pretendia golpear a sua última vítima. Sim, última. Decidira abandonar aquela vida de crimes após atingir sua meta final. Sabia que era errado continuar aquilo. O outro assassino acabaria recebendo a fama pelos seus crimes, mas ele não se importava com a repercussão. 
Mas, surpresa! O facão não estava lá. Alguém o tinha retirado, tinha certeza. Quando começou a se ligar de quem poderia ter sido, já foi tarde demais. Recebeu o primeiro golpe pelas costas e caiu no chão, prostrado e inerme. Logo em seguida, escutou a voz de sua esposa. 
- Você achou mesmo que poderia ter feito tudo isso sem que eu descobrisse? Não só descobri como fiz o mesmo. Eu sabia que você ia querer me matar, que era para isso que você estava treinando para pegar coragem. HAHAHAHA. Que ridículo que você é. Quando você vai, eu já estou voltando, será que ainda não entendeu isso?
Golpeou várias vezes até vê-lo bem morto, afogado em uma poça de sangue. 
Ao terminar, ouviu as sirenes dos carros de polícia ao redor da casa. Saiu de braços levantados e gritou. 
- O assassino era o meu marido, descobri ontem e tenho provas disto. Ele ia me matar. Deixou isto escrito em seu diário. Eu o matei em legítima defesa. Ele está aqui no chão da cozinha mortinho da Silva. 
Será que Marisnalva ia conseguir explicar a razão de tantas facadas. Só o ódio as poderiam explicar.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A coisa



Era já noite avançada e eu dormia a sono solto. Despertei ouvindo um ruído, cacos de vidro partindo, estilhaços, rangidos, um misto de tudo isso e ainda mais. Depois, não ouvi mais nada, só o silêncio da noite. O silêncio da noite é como um sussurro, que não diz nada, mas diz tão profundamente que assusta.


Foi em meio a este silêncio que se seguiu ao ruído, que a coisa, um vulto obscuro e tenebroso, se aproximou de mim . Não sabia se era uma sensação ou alguma outra coisa. Se era real ou imaginário. Só sei que estava ali, se aproximou e me tomou e eu passei a ser dois ao invés de apenas um. Senti que era uma coisa terrível que vinha de algum lugar tenebroso e o qual iria conviver por muito tempo. Era alguma coisa que, perdida e sem corpo, procurou um para compartilhar e achou o meu.

Agora, eu não sou apenas eu, mas sou dois. E este outro com que compartilhava tudo, digo até que contra a minha vontade, era mais forte do que eu.

Pensei em me matar, mas a coisa me tomava e dizia - fique, tenho outros planos para nós, mas não era bem assim que ela dizia, pois dizia algo assim como se fosse um sussurro, sem palavras distinguíveis, como tentáculos que nos apertam a garganta e nos fazem sufocar, mas que eram tão convincentes que não restava outra senão atender sua ordem. Ordem! Comando! Sim, era assim que a coisa comandava a mim e a meu corpo. E entendia que não podia haver mais ninguém em minha vida.


A partir deste dia  fui eliminando as pessoas que faziam parte da minha vida, pois agora minha vida era ser o veículo em que a coisa realizaria seus propósitos, desculpa se insisto em chamá-la de coisa, mas não sei mais do que chamar. Ela não se apresentou, só possui meu ser e pronto.


Naquela mesma noite, Sueli, minha namorada, vinha me visitar. Era o dia da semana em que nos encontrávamos. Namorada não é bem o termo, pois só nos encontrávamos para ter sexo. Ela era casada, mas o marido havia arranjado uma amante e acabaram fazendo aquele acordo tácito em que cada um podia procurar satisfação fora do casamento.  Era meu dia favorito da semana, pois ela era linda e sensual. Seu cheiro me inebriava. Não sei como o louco do marido a deixava para mim. Talvez pensasse assim apenas por não conhecer a outra.


Bom, ela veio esta noite vestida para matar. Se fosse eu sozinho a estar dentro de mim, eu a teria agarrado ali mesmo e a amado como todos meus poros, suor, coração e lágrimas, teria fundido as nossas carnes numa erupção ardente de brasas.

Mas a coisa não me deixou reagir do jeito que eu costumava, como o ardente amante que eu sou. A coisa começou me dizendo - você precisa se livrar dela. Somos só eu e você agora. Não precisamos e ninguém para nos atrapalhar. E aí eu respondia para a coisa - o que quer dizer com se livrar dela? - Mate-a, estragule-a, sufoque-a. Deixe-a sem ar e sem vida. Na verdade ele nada me dizia, mas eu ia traduzindo, em total sintonia, o que ele me transmitia telepaticamente.

Mas fazer isso como ?  Eu nunca fiz isso, nem sequer cogitei matar alguém, acha que é assim, que basta dizer mate e a pessoa já sabe matar?  Mas a coisa, ao invés de responder me deixou claro, telepaticamente, indiscutivelmente o que era para eu fazer. E todo o método frio e desumano de matar alguém me surgiu pronto na mente, como se fosse o resultado de anos de reflexão, mas tudo se deu em apenas segundos.

Sem pensar comecei a preparar tudo. Ela estava deitada, esperando meus carinhos. Eu começava sempre por um beijo demorado. Ela gostava de sentir minha língua e me perguntar qual era o sabor que eu sentia.

A coisa me fez entender de forma diferente o que ela queria com aquela pergunta. Não sei se era isso, acho que não, sempre pensei que ela queria saber se estava saborosa, cheirosa, mas a Coisa me induziu a pensar que, talvez, eu pudesse sentir o gosto de outro beijo.  Me subiu uma raiva e a sufoquei, sem pensar,  com o travesseiro. Senti ela perdendo as forças. Aquela vadia. Quando dei por mim, vi que quem dizia aquilo era a Coisa e não eu. Por um momento , ela assumira o total comando, tempo o suficiente para que Sueli tivesse morrido asfixiada.  Tive que destruir as provas. A coisa foi me dizendo o que fazer. Na verdade, a coisa não dizia nada para mim. Iam surgindo os comandos na cabeça, sem que ninguém precisasse dizer nada. Realmente, é uma coisa difícil de explicar, tenho certeza que ninguém vai entender porque fiz o que fiz. Não foi por escolha, mas por que eu tinha que fazer, eu não podia contradizer aquilo que me invadiu no silêncio da noite, para me fazer de instrumento dos seus desígnios. Como eu dizia, eu cortei o corpo em pedaços e os dissolvi em ácido. Ácido, que ácido? O ácido apareceu lá. Estava no fundo do porão. Não sei porque algum dia eu teria precisado de ácido sulfúrico e clorídrico, mas meu subconsciente havia pedido e eu atendi sem saber o porque. Era como me a coisa não apenas tivesse tomado a mim, mas ao meu passado, à minha história. Era se ela possuísse a minha identidade. Mas, eu juro. Não era eu que estava ali, era apenas a Coisa exercendo sua tirania sobre mim.

Da mesma foram todos os outros, os amigos, os parentes, fui convidando um por um para ir lá em casa e os fui eliminando até não sobrar mais ninguém. Aí a coisa disse para eu seguir em frente com a execução dos seus planos.Nunca tive consciência do que ela pretendia e até hoje não sei. Ela sempre se recusou a me explicar seus planos.

Eu era apenas uma peça no seu tabuleiro de xadrez. Não tinha consideração por mim e apenas usava o meu corpo, pois ela não possuia  um que fosse seu. Quer dizer, meu corpo era seu, por assim dizer,  mas eu ainda existia ali, de uma certa forma. Eu era como um ser mantido vivo apenas para ser consumido. Acho que se não houvesse mais eu dentro de mim,  meu corpo iria junto e é por isso que ela me mantinha vivo, como que respirando por máquinas e mantendo as funções vitais apenas para que meu corpo não morresse.

Sei que parece absurdo, mas eu garanto ser verdade. Há muita coisa além da ciência e da realidade. Além disso, há o mistério. Quem é que poderia viver sem ele?

Depois de ter eliminado uma por uma as pessoas que poderiam interferir, me deixando só neste mundo, a Coisa colocou seu plano em ação. Qual ele seja, não sei. Ela nunca me contou. Tentem entender vocês, pois eu não consigo compreender.

Primeiro, ela me fez ir ao cemitério e, diariamente, comecei a roubar os corpos dos túmulos. 



Nossa amada Leninha, descanse em paz. Descanse eternamente, pai. Passant, ne pleure pas ma mort, Si je vivais tu serais mort.. Passei a colecionar mentalmente epitáfios. Acho que era para distrair a mente do horror que eu fazia. É que nem por um momento deixei de ter consciência que aquilo era errado, que não devia se desrespeitar os mortos, que não se devia mexer com as coisas do além. Me perdoem os familiares e as almas dos que violei o túmulo. Eu não tinha alternativa.

Acho que foram centenas. E a Coisa me fazia acumular aqueles restos mortais no porão. Cada um em uma caixa e eu tinha que escrever o nome do falecido na caixa.

Depois, foram as velas, uma para cada corpo, uma faca de prata, um serrote, um martelo, uma foice, uma picarta, algemas e outros itens de tortura e macabros. E a cada novo item, ia se formando aquele ritual macabro e satânico. Não consigo compreender o que ele queria. Acho que queria formar uma legião se zumbis, ou sacrificar ao diabo ou ao vampiro as almas daqueles mortos.
Enfim, o item que faltava. Uma criança, um inocente. O sangue de um inocente tinha que ser derramado, não sei bem com que propósito, era, provalmente, parte essencial do ritual, para que seus desejos lúgubres fossem atendidos.

Não sei e nunca vou descobrir para que tudo aquilo, pois vocês chegaram bem a tempo de evitar a catástrofe a hecatombe. Quando eu estava com o machado pronto para decapitar aquela pobre crinaça, vocês chegaram e impediram que a Coisa realizasse seu ritual. Vinham me seguindo desde que deram pelos primeiro túmulos violados. Me surpreenderam justamente quando eu iria iniciar o ritual dos mortos.

Não acreditaram em mim, não acreditaram que havia realmente a Coisa. Achavam que eu tinha inventado tudo aquilo para escapar da culpa, para escapar da pena. Claro que não, jamais deixei de me dizer culpado, só queria que atentassem para a Coisa e que a parte maior da culpa recaísse sobre ela.

Sob tortura, acabei confessando o que não era verdade, que fui o responsável consciente pelos meus atos e que a Coisa tinha sido inventada por mim. Isso é que o pior, saber que a Coisa vai continuar solta por aí, tomando o corpo e a vontade de outras pessoas. Dizem que eu menti, mas dizem isso por nunca terem tido a coisa dentro de si. Não tenho motivos para mentir, tanto é que prefiro a morte. Eu exigi que me condenassem a morte, tal o horror que tinha ao pensar que  a Coisa, que depois que fui preso me deixou, volte e me tome novamente.

Oh, desgraça, me condenaram a apenas trinta anos de prisão.

Sei que o que fiz é o horrível, mas não fui eu e tenho medo de ter que fazer novamente, pois a Coisa prometeu que volta assim que vocês me soltarem após eu cumprir minha pena. Só de pensar nisso, tenho calafrios. É por isso que resolvi me suicidar e deixar esta carta, me desculpando com as muitas pessoas que prejudiquei.


OBS : Esta carta foi encontrada firmemente segura pelos dedos hirtos e endurecidos do priosioneiro, que usou tolhas e lençóis para formar uma corda e se enforcar.


sábado, 15 de julho de 2017

Eu tenho este estranho hábito de ler os quadros de avisos. Todo mundo acha que num quadro de avisos só tem coisas bem pouco interessantes, tipo :

- Geladeira nova a preço de usada! - teria cabimento geladeira usada a preço de nova?

- Aluga-se formoso apartamento de frente para praia, e que tal, ao invés, aluga-se formoso apartamento de frente para os fundos? Eu fico brincando de anúncios! É divertido. Assim, é possível transformar uma coisa chata numa coisa divertida. 

Por exemplo, quando  acontece de estarmos assistindo uma aula ou palestra bem chata, sabe daquelas que dá vontade de dormir mesmo sem ter sono?
Não que eu ache aulas chatas quando não são. Tem muita gente que acha chata qualquer aula, mesmo as que não são. Gente chata, pois só acha tudo chato quem tem a chatice dentro de si. Eu tendo a achar legal o que é chato para todo mundo e chato o que é legal para todo mundo.
 Não se trata de ser do contra, mas de ser diferente mesmo.Tem gente que acha que faço isso para ser do contra, mas, como não é por isso, tendo a manter em segredo o que acho legal e o que acho chato. Querer ser maior é diferente de querer ser diferente, se é que o que é sem sentido possa fazer sentido. Esta é a direção sobre a qual se deita o meu destino. O plano osculatório onde se espalham meus planos.  

Quando eu estou assistindo uma aula de matemática, por exemplo, o professor explicando a equação do círculo : 

- O círculo é o lugar geométrico dos pontos equidistantes de um ponto chamado de centro do círculo - imagina aquela voz modorrenta dizendo isso. Eu adoro matemática, mas até isso pode ser chato numa voz dessas. E aí, ele contínua : Não confundam círculo com circunferência, pois o primeiro é   a figura o outro o seu comprimento ou perímetro.
Um círculo é um polígono regular de infinitos lados... aí eu imagino, um infinitógono. hahaha, uma piada matemática. E que tal um infinitaedro, ou seja, uma esfera? E que tal o infinito, tadinho, apenas um oito dormindo, porque tanta empáfia? O oito dormindo como é representado o infinito é uma grande lição para os que se acham grandes, cheios de empáfia, mas que não conseguem entender a grandeza desta pequena lição e não passam de um oito dormindo, sem jamais atingir a grandeza do infinito que este símbolo representa. Será que, quando uma esfera se deita, se é que seria possível pensar numa esfera deitada sem se valer de uma quarta dimensão,  vira um octaedro? Só se for regular e convexa, naturalmente. 

Aí, quando ele vai explicar que, a partir da expressão da distância no plano cartesiano, ou seja, que a distância é a raiz quadrada da soma do quadrado das coordenadas, se deduz que o quadrado do raio do círculo é igual a soma do quadrado das coordenada e isso expressa a equação de um círculo com centro na origem e que, para expressar um a equação de um círculo de centro em um ponto qualquer x0, y0 basta fazer uma translação de eixos, ou seja x´ = x - x0 e y = y - y0 e agora x' ao quadrado mais y' ao quadrado igual ao raio ao quadrado. 

Todo mundo dormindo, mas eu imaginando o professor vestido num barril por ter perdido a roupa e que,  vestindo  também um chapéu de mestre cuca, vai ensinando uma receita de bolo de chocolate, a uma turma que, ao invés de dormir, como oito deitado que são, olha embasbacada a infinitude absurda de um bolo de chocolate.

Todo mundo dormindo, eu rindo.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Entre a aspirina, o anão e o passaporte


Estava eu com uma tremenda dor de cabeça, daquelas de rachar o crânio. Eu não gosto de tomar remédio, mas daquela vez não estava dando para aguentar mesmo. Como não costumo tomar remédio de espécie alguma, especialmente analgésicos, o efeito dele é tiro e queda. É tomar e passar  a dor, ao contrário dos que são hipocondríacos e vivem se encharcando de fármacos. A dor é  bastante edificante e não porque se render ao primeiro sintoma, enfim, não entendo tanta fraqueza. Mas, quem sou eu para julgar os outros. Cada um é que sabe de si, pois não sabemos de fato se a dor que sentimos é a mesma dor que outra pessoa sente. Deve haver pessoas mais sensíveis a dor do que outras.
Mas, onde encontrar remédio na casa de alguém que não toma remédio? É porque não tomar remédio chega a se uma doença em mim. Procurei em todo canto e não encontrei. Encontrei todo tipo de coisa que estava perdida, as chaves que me fizeram trocar a fechadura da casa, os documentos que tive que tirar uma segunda via, tudo menos o maldito analgésico.
Não queria sair de casa me sentindo daquele jeito, mas não via alternativa.
Procurei em todas gavetas de todos os armários e não encontrei sequer uma aspirina. Sabe, eu prefiro tomar aspirina, não sei porque não quero saber de dipirona, paracetamol, e outros analgésicos populares.
Enfim, decidi ir até a farmácia.
Quando lá cheguei, havia um anão sendo atendido pelo único atendente disponível. E o anão, além de ser muiiiiiiiiiiito baixo, era muiiiiiiiiiiiito chato. Sabe daquele que acha que todos os remédios são caros ou não prestem e pedem sempre uma opção alternativa que não serve também e pedem mais outro até desistir de comprar. E quando desistem de comprar para procurar em outra farmácia, passam para outro item de uma lista interminável de remédios. Pois o anão, além de baixo e chato, também era hipocondríaco. E assim, foi rachando aos poucos minha cabeça, quando, de repente me lembrei que naquele dia era o último dia para eu ir pegar meu passaporte e acabei me esquecendo por causa da dor de cabeça. Caramba, vou ter viajar dentro de um mês e ainda tenho que providenciar o visto.
Seria uma viagem de negócios. Meu chefe me pediu para participar de uma reunião com um cliente no exterior. Seria a primeira vez que sairia do meu país. E esta dor de cabeça para atrapalhar.
O que seria mais importante? O passaporte ou a dor de cabeça?São tantos dilemas que temos que enfrentar pela vida. Isso ou aquilo! Sempre resta a dúvida e uma grande lição que aprendi na vida foi lidar com este grande algoz que é a dúvida.
Coitadas das pessoas que não entendem que uma parte das grandes questões que lhe atormentam são coisas nebulosas que ninguém sabe ao certo a resposta e que as respostas talvez nem existam. Tudo é fácil quando é com outras pessoas ou se é meramente hipotético, mas quando se entra no jogo a dúvida é uma verdadeira tortura.
Certamente, todos diriam:  O passaporte! Isso porque não sabem a dor que estou sentindo e isso porque eu sou uma pessoa quase imune a dor. Tenho vários exemplos para citar. Teve aquela vez, quando eu era menino e um menino que eu havia encrencado foi buscar sua patota para me dar uma surra e como fiquei orgulhoso de não ter dado um pio. Eles ficaram tão impressionados, que fugiram assustados. Me senti um espécie de super herói. Mas, de que vale ser um superherói se não se aguenta uma dor de cabeça? Eu devia era dar umas porradas no anão, mas me acusariam de discriminação. Eu não tenho nada contra os anões. Só contra aquele anão que não acabava nunca sua lista infinita de remédios de que não precisava ou não queria comprara. Era um anão que veio ali apenas para irritar o vendedor. Era uma verdadeira vingança contra todos os anões vilipendiados, humilhados e discriminados que havia no mundo. Mas a vítima da vingança agora era eu. Logo eu que sempre fiquei ao lado dos fracos e oprimidos. Se soubessem a minha revolta quando soube que na França havia uma competição de arremesso de anões a distância. Não que não fosse engraçado imaginar o pequenino sendo pego pela perna por um fortão que ia girando, girando e girando loucamente em torno de sua cabeça, enquanto isso o anãozinho urrando, até soltar e ir correndo ver a que distância que ele havia caído. A vontade que dá da gente rir, vem certamente de um espírito cruel que habita nosso subconsciente. Mas, pensando bem, não havia nada de revoltante imagina AQUELE anãozinho chato sendo arremessado.
Aí imaginei o Samurai Gourmet. Seu samurai entrando feroz na farmácia e dizendo tudo que eu desejaria ter a coragem de dizer. E arremessando o danado do anão, é claro, lá no meio da rua e uma caminhão passando sobre o anão, engatando uma ré e passando de novo, até que o pequeno e chato anãozinho tivesse virando uma simples pasta confundindo-se com a tinta do asfalto.
Ei, que legal! Meus pensamentos malvados me fizeram distrair e, quando dei por mim, a dor de cabeça havia definitivamente passado. Agora podia ir pegar meu passaporte. A imaginação é um santo remédio.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Adilson queria presenciar um milagre. Via um passarinho e pedia aos céus para o passarinho pousasse em sua mão. Mas o passarinho seguiu seu caminho, não dando a mínima atenção ao pedido de Adilson.
Isso acontecia todos os dias. Adilson esperava acontecer o milagre e o milagre insistia em não acontecer. Ele achava que era por não ter suficiente fé, mas se ele precisava tanto daquilo era exatamente para não perder o pouco de fé que ainda tinha. Se Deus estivesse ouvindo, certamente iria atender suas preces. E a medida que tentava crescer sua fé, sua fé diminuía.
Um dia, cansado, resolveu seguir seu caminho e ignorou o passarinho. Então, aconteceu o que ele tanto queria: o passarinho voou e pousou em sua mão. Logo agora, quando ele já não mais cria.
A partir desse dia, o passarinho o seguiu, como se segue um amigo que se deseja confortar, como se conforta um amigo que havia perdido a fé.

Eduardo estava apaixonado por Luiza. Mas Luiza não o queria.
Todos os dias, Eduardo insistia e dizia : Te amo Luiza, namora comigo, vai?
Não, ela respondia. Eu não te amo. Não posso te amar, pois amo outro rapaz.
Mas Eduardo não desistia. Eu te amo, Luiza, ele dizia.
E ela sempre respondia, Eu Não te amo Eduardo, eu amo outro rapaz, de olhos claros e cabelos louros. Um príncipe lindo e rico. Você é pobre e feio, por que eu iria te amar?
E Eduardo dizia, por que eu te amo e é muito bom ser amado, pois eu queria muito ser amado por você.
Chegou o dia, pois sempre haverá um dia que será o dia para tudo que ocorreu ou ocorrerá, o dia em que Eduardo disse que desistia. Foi até Luiza e disse que havia se cansado e ia seguir seu caminho, procurar outra pessoa. Esquecer seu amar e reinventá-lo em outros olhos, em outro coração, reconstruir esse amor com outros tijolos, outros materiais de construção, recortá-lo em múltiplos pedacinhos e depois colar com outra cola, uma daqueles que não desgrudam por nada desse mundo, pois era desperdício de amor amar tanto alguém que não nos ama de volta, pois seria desperdiçar o bem mais precioso, o amor, deixá-lo guardado para alguém não o queria.
- Mas logo agora, respondeu Luiza, logo agora que descobri que o rapaz que amo não me ama e que, pior ainda,  ama outra. Logo agora que havia resolvido te amar para sempre, que havia descoberto como és bonito, como é bonito e desejável seu amor. Logo agora que resolvi te amar que tu desistes.
E Eduardo, radiante, resolveu que seria a vez dela insistir. Será que um dia ela consegue dobrar a inquebrantável vontade de Eduardo de não mais amá-la? O amor é assim : feito de desencontros.
- Eu te amo, Eduardo, não desista de mim, dizia ela todos os dias.

Afrânio queria estudar medicina.
Como não tinha dinheiro suficiente, tinha que ser em uma universidade pública. Mas passar em uma delas é bem difícil, é preciso estudar muito.
Estudou e não passou. Tentou de novo e não conseguiu mais uma vez. Tentou outra e mais outra e, enfim, conseguiu passar.
Ficou feliz, mas seria só o começo. Seguir adiante, sempre, era no que ele pensava. 
No primeiro dia de curso, foi atropelado por um caminhão no percurso. Seus sonhos viram um monte de frangalhos espalhados nos asfalto.
Para uns as coisas caem dos céus e nem precisam fazer força para conseguir o que desejam. Para outros, apesar de todos os esforços, só caem dos céus desgraças.
Todos dias são iguais. Aqueles que correm atrás, não conseguem e se  decepcionam, aqueles que resolvem desistir e seguir em frente, são as coisas que já não queria  vão atrás deles, talvez até por que antes fizeram.

É tipo quando a gente estuda um assunto difícil e se toca de que não está aprendendo nada, e joga o livro na parede e quando o livro se estilhaça em mil frangalhos no chão, dá um estalo e percebe que o esforço não havia sido em vão e agora finalmente aprendeu, pois a medida que se aprende de fato, a pessoa vai se tornando mais humilde ao perceber o quanto não sabia e, então, corre-se a colar os pedacinhos do livro e se ajoelha humildemente ante os tesouros ali contidos. A arrogância só pertence aos ignorantes e é um tremendo indício dele, isto a vida me ensinou. Já percebeu como tudo é fácil para quem nada fez, pois para ele é só ir lá e fazer, mas é justamente isso é que difícil, fazer, saber o que fazer e fazer é coisa que se consegue apenas com humildade e só os que fazem, sabem como é difícil fazer. Por isso, não aprecio jornalistas e críticos, digo, desses que nunca fizeram nada, mas ficam dizendo apenas o que está errado em tudo, pois fácil demais achar o erro em alguma coisa, mas não quer dizer que achar o que está errado é saber fazer, longe disso. É como jogar o jogo dos sete erros - a gente encontra os erros mas não por isso vai saber fazer o desenho melhor que desenhista. Nos textos dos críticos é normal não encontrar soluções alternativas propostas. E quando se encontra uma, é bem provável que não vá funcionar.
 De nada adianta a ansiedade, pode-se dormir tranquilo. O que virá, certamente virá. só nos resta aceitar o demora ou pressa que as coisas vem, pois elas virão tarde demais ou antes do tempo.  Por outro lado, coitado de quem não tentar, pois só se conquista tentando, mas a chance de conseguir, infelizmente, é muito pequena, mas não tentar é ter a certeza de que não vai conseguir.
O desejo sexual explode quando ainda não se sabe quando conquistar uma mulher, mas, a medida que nos tornamos experientes e confiantes, ele definha. A sabedoria nos chega ao final da vida quando já não serve de nada, nem mesmo para transmiti-la, pois o jovem não a pode entender. Perdemos a saúde quando a temos para ganhar dinheiro para depois perder esse dinheiro para recuperar a saúde. Pois esbanjamos saúde quando não temos dinheiro suficiente para aproveitar a vida, mas esbanjamos dinheiro quando a saúde nos faz falta.
É preciso enfrentar com coragem os paradoxos da vida. Saber que o milagre só acontece quando não o esperamos, saber que o amor nasce ao mesmo tempo que morre. Saber que quando finalmente se chegou lá onde se queria, percebeu também que tudo terminou .
 



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Em uma caverna, em plena idade média, três bruxas discutiam suas mais novas poções. Elas evocaram as forças sobrenaturais para que agissem conforme suas vontades e começaram a disputa.
Elinora foi a primeira: 
- Minha poção é feita com escamas de couro de crocodilo, uma pitada de teria de aranha, três pedacinhos de unha de cavalo, uma mecha de cabelo de bebê e dois olhos azuis femininos, mistura tudo e deixa ferver no caldeirão. Serve para picada de mosquito, coceira no dedão e pulga.
- hahahahaha! foi sua terrível e sinistra gargalhada, E a sua poção, como é.
Agora, era a vez de Narda: 
- A minha é bem simples. Ferve leite de magnésia e derrete, aos poucos, cubos gelados de sangue de canário. Depois, basta um pitadinha de de gelatina de ovo de serpente e a mistura explode, espalhando uma fumaça verde e fagulhas cor de rosa. É lindo demais. Mas não serve para nada, só para assustar -hihihihihihihi, Riu-se a beça. - E você, Dindalina? O que tem para mostrar desta vez?
- Puxa. Estou sem graça (Dindalina era uma bruxinha nova, inexperiente, tinha lindos olhos e mechas douradas lhe caiam sobre as bochechas). Minhas poções são tão sem graça perto das suas... Sou tão inexperiente.
Mas mesmo assim, tenho este creme que fiz para manter minha cutis macia e delicada. Querem provar.
Elinora e Narda, que eram horrorosas, feias enrugadas e tinham o rosto cheio de verrugas cabeludas, correram apressadas e espalharam o creme no rosto.
Subiu uma fumaça e elas se transformaram em poeira que um vento leve soprou pela janela.
Dindalina, saiu cantando, saltitante e feliz e se embrenhou no ventre negro da floresta.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017


A caverna

A espeleologia é uma ciência que estuda as cavernas e foi fundada por Martel. Edourd Martel era advogado, mas amante da natureza, foi o primeiro a explorar uma caverna sob uma perspectiva espeleológica, tendo explorado pela primeira vez com sucesso as cavernas de Abime Bramabiau e Grotte de Dargilan na França. O termo, entretanto, foi criado depois por Emile Rivière a partir dos termos gregos spelaion (caverna) e logos (palavra) no sentido de descrição das cavernas.

Eu sou estudante na universidade e estou fazendo um curso de espeleologia. O assunto é realmente fascinante, pois as cavernas foram guardam diversos segredos da Terra. Podem conservar formações antigas, vestígios de animais e plantas fossilizadas e também foram habitação dos seres humanos em sua pré-história. É como se fossem verdadeiros baús repletos dos mais reluzentes e variados tesouros.
A atividade biológica forma, ao longo do tempo,  depósitos calcários e estes são soterrados pelos aluviões dos rios, da atividade lacustre e da erosão. Estes depósitos, quando são per-colados por substância ácidas, são dissolvidos e criados espaços vazios no seio da terra. Esta a é origem das cavernas.
Meu professor de espeleologia é muito divertido. Ele fala das cavernas como se elas fossem seres vivos e seu amor pelas cavernas é tão grande que ele as trata como se fossem suas namoradas ou companheiras. Seu nome é Tirso e ele é muito popular entre os alunos, apesar de ser tão estranho. Suas aulas despertam grande interesse entre os alunos e desfruta de certo renome na comunidade acadêmica também, por algumas relevantes e consistentes contribuições à ciência.
Tenho uma amiga chamada Daisy que conheço desde o primeiro grau e que já foi minha vizinha. Ela está matriculada no curso de espeleologia também e gosta das cavernas tanto ou mais do que eu.  Eu sempre fui apaixonado por ela, mas nunca me declarei, pois sempre fui muito tímido. Seus olhos além de inteligentes são de um azul que não se encontra nem nos lagos que dormem esquecidos nos fundos das cavernas.
A pergunta mais frequente que nós, amantes das cavernas, fazemos, é que mistérios as cavernas podem esconder. São mapeadas mais de quatro mil cavernas só aqui no Brasil, mas calcula-se que devam existir oitenta mil, Isto dá uma dimensão do quanto se desconhece ainda sobre as cavernas, apesar de tanto que se tem estudado. A caverna de Mamooth, no estado de Kentucky nos Estados Unidos, é a mais extensa do mundo com seus 640 quilômetros de túneis explorados.
O nosso professor marcou uma excursão para explorar uma caverna próxima. Eu sonho há tempos com isso. As cavernas alimentaram meus sonhos de criança desde o tempo em que li uma adpatação do romance de aventuras Viagem ao Centro da Terra de Julio Verne, em que o famosos geólogo Oto Lidenbrock, junto com seu sobrinho Axel e sua afilhada Grauben, procura repetir os passos do alquimista medieval Arne Saknussem, que deixara um manuscrito encontrado dentro de um livro antigo, descendo ao centro da terra a partir da garganta do vulcão adormecido Sneffels na Islândia e expelido, tempos depois, em uma erupção do vulcão Stromboli na Sicilia.
Porém, apesar dos atrativos e charme, uma excursão para uma caverna pode ser algo bastante perigoso. As cavernas escondem perigos tais como as paredes instáveis e risco de desabamento, animais assustadores, perigosos ou desconhecidos, tais como morcegos, aranhas, escorpiões e  serpentes, e, ainda, pode ser esconderijo de pessoas excluídas da sociedade, tais como assassinos, foragidos da justiça, bandoleiros e outras figuras perniciosas. A gruta dos quarenta ladrões que Aladim, nas Mil e Uma Noites, desafiou violar, é coisa sempre presente no imaginário popular.
O professor nos alertou desses riscos que ele diz serem administráveis até certo ponto, mas as cavernas nunca podem ser totalmente administráveis, pois quase como seres vivos independentes e imprevisíveis. E, lembrava ele, a incerteza, a beleza e o mistério andam sempre de mãos dadas. Assumir o risco é, de certa forma, viver, estar seguro é sempre se internar num túmulo antes da hora.
Começamos os preparativos para explorar a caverna do Diabo, umas das maiores existentes nos arredores.
Muitas lendas se contavam sobre a caverna, que era habitada, que era antiga, que nela existiam animais desconhecidos e ainda contavam histórias de vampiros, de lobisomens, de seres abissais, mortos vivos, gases venenosos e alucinógenos, vestígios de civilizações desaparecidas, túmulos de antigos reis e ancestrais de tribos extintas, cidades enterradas sob toneladas de depósitos piroclásticos e coisas assim, mas um bom cientista não acredita nessas coisas sobre naturais.
Uma das partes mais importantes da exploração de cavernas é o seu planejamento. Isso parece chato e aborrecido, mas é a parte mais importante e que exige conhecimento e técnica. É preciso se cercar de cuidados, tais como providenciar capacetes com lanterna, além de lanternas adicionais e bateria para muitas horas. A caverna é o império da escuridão e não se pode deixar a iluminação de lado. Além disso, por ser um lugar bastante inóspito, é preciso levar água e alimentos abundantes.Um mapa da caverna é extremamente importante para visitar lugares já conhecidos, mas na exploração de uma área desconhecida de uma caverna caverna convém usar uma bússola e levar material para ir construindo um mapa durante a explora. Ressalte-se que o GPS não funciona dentro de uma caverna, pois lá dentro ele não consegue enxergar os satélites que servem de referência. Como também não se enxerga as estrelas, nem o Sol, resta apenas os mapas e a bússola para servir de orientação.
Tudo pronto partimos. Com Tisso sempre à frente e seguido de perto por mim e por Daisy, atravessamos tortuosos caminhos, alguns até bem até bem íngremes, mas todos bem conhecidos e mapeados. Entramos por uma passagem extremamente estreita e entramos num salão extremamente grande com um lago no centro. Contornamos o lago e entramos em outra passagem estreita. Por uma estranha distração, acabamos entrando em passagem que não estava mapeada e, sem querer, começamos a invadir o desconhecido. Já andávamos por esta passagem estreita quando percebemos que esta não era a passagem que pensávamos ser, muito mais curta e que deveria desembocar em um novo salão famoso por suas estalagmites e estalactites douradas e por cascatas de águas esverdeadas que se derramam sobre rochas de cores sanguineas com incrutações violáceas, resultados de antigos depósitos vulcânicos superpostos.
Ao nos darmos conta do equívoco, o professor Tisso juntou a turma e avisou:
- Erramos o caminho e entramos por um túnel não mapeado e isso pode ser muito perigoso, pois não sabemos o que pode haver pela frente; vamos voltar.
Assim que começamos a retroceder, sentimos um tremor seguido por um grande barulho, assemelhado ao de um trovão, vindo do caminho que havíamos passado. Pouco tempo depois, vimos que um abalo sísmico havia fechado nosso caminho. O teto cedera e toneladas de pedra tornavam impossível a nossa volta. Como não tínhamos trazido picaretas e pás, por serem muito pesadas, não tínhamos como desobstruir a passagem.

A única alternativa seria seguir pelo túnel desconhecido, pois havia grande chance de existir interligação com passagens e salões mapeados.
- Vamos pessoal, agora não vai ter jeito, temos que seguir em frente - falou o professor.
 Eu já estava bastante assustado. Por outro lado, a aventura era tanta, que seria uma oportunidade inigualável de explorar o desconhecido, uma aventura emocionante como nunca tivéramos a chance de viver. Por isso, apoiei o professor dizendo:
- Coragem! Vamos seguir em frente, pode ser uma oportunidade de realizarmos uma grande descoberta.
Poderíamos mesmo, pensei cá comigo, dar nomes ao locais futuramente, por termos sido os primeiros exploradores dessas passagens e inscrevermos nossos nomes na eternidade. Andamos muito tempo e, enquanto isso, a passagem ia ficando cada vez mais estreita. A partir de um certo ponto, um ruído de correnteza se ouvia em alguma câmara paralela. Era provavelmente algum rio subterrâneo.
Finalmente tivemos que passar por um túnel tão estreito que só podia passar um por vez agachado, rastejando, pois era muito baixo. Ainda bem que todos estavam em forma.
- Quem se arriscaria a ir primeiro? - perguntou o professor.
Eu, mas do que depressa, me ofereci.
- Eu, professor, pode deixar comigo - falei com a voz altissonante e segura.
Era essa uma oportunidade de mostra minha coragem para Daisy. Corri o olhar pelos seu olhos azuis que brilhavam num misto de medo a admiração. 
Me enchi de coragem, estufei o peito e segui adiante, rastejando em meio às rochas escarpadas e, como merecida recompensa, tive o privilégio de ser o primeiro a admirar uma maravilha totalmente inesperada. Pois ao final desta passagem havia um grande salão que não estava no mapa e tinha uma construção de porte em seu meio. Olhei admirado sem saber se aquilo era um túmulo, uma habitação ou vestígio de uma antiga civilização. Ajudei os outros a atravessarem o túnel estreito e ao vislumbrarem a construção ficaram todos admirados por tão notável descoberta. Investigando melhor a construção, diversos aspectos curiosos e mesmo mórbidos, tais como a inscrições feitas em uma linguagem desconhecida que não era formada nem por ideogramas, nem por hieroglifos, nem por caracteres cuneiformes, acho que nem mesmo Champlion os poderia decifrar, além de diversos desenhos de seres estranhos, muito deles alados e parecendo zumbis, de ossos e de caveiras em profusão decorando as inscrições em extensas molduras filigranadas e  esculpidas nos muros externos e internos do estranho edifício. Bem no cetro da construção, uma colossal tampa cobria um buraco, tudo nos levando a crer que se tratasse de uma tumba antiga. Esta pedra era ornada com figuras estranhas pois de suas cabeças despontavam pontudos chifres. A primeira impressão que tive é de que a tampa cobria o buraco do diabo ou então alguma passagem direta ao inferno de Dante. Parecia ser a tumba do próprio demônio, uma tumba erigida para servir de templo de cultos sinistro de antigas civilizações bárbaras na qual se evocavam as forças malignas a agirem contra os inimigos.
O mais impressionante aconteceu quando o professor esbarrou em uma alavanca sem querer, tendo acionado algum mecanismo automático. Um terrível rangido de engrenagens enferrujadas e sem lubrificação, foi acompanhado pelo movimento lateral da tampa e uma buraco sem fundo começou a
se mover e um gás esverdeado começou a evolar de dentro do abismo negro e este gás
invadiu nossas narinas. O que senti de imediato foi uma espécie de tontura, seguida de um incontrolável medo. Vozes começaram a sussurrar nos meus ouvidos, falando palavras de ódio, ameaças mortais, vozes que, sabíamos mesmo sem entender uma palavra, nos amaldiçoavam. A única coisa que consegui pensar foi em correr dali, indo para o lado oposto de onde tínhamos vindo, os outros, não soube na hora  o porque. Ali, na outra extremidade, um novo túnel, este bem maior nos levou para outra câmara bem menor.
- Salve-se quem puder - gritou o professor, e seguiram todos correndo para a mesma direção.
Enquanto corríamos, as vozes nos seguiam, assim como passos tenebrosos que emitiam rugidos tais que se pareciam trovões. Nesta câmara havia um lago , no qual mergulhei, pois alguma coisa me dizia que era a única forma de escapar e na lateral desde lago avistamos uma luminosidade dentro a água. Era uma passagem que, possivelmente, nos levaria para fora da caverna. Mergulhei e nadei desesperadamente até sair em outro lago de águas iluminadas. Só pensei em subir, pois o ar estava no fim. Saímos em um lago fora da caverna e a céu aberto e nos salvamos todos, já que os outros me seguiam.
- Quando cheguei a margem do lago, só pensei em Daisy, pois me preocupava com sua segurança. Mas ela sabia se virar sozinha e a avistei em segurança. Corri em sua direção e perguntei como estava.
- Estou bem, assustada, é bem verdade, mas  estou bem.
Eu a abracei apertado e senti sua respiração contra meu peito.
Depois disso, acabamos encontrando o caminho de volta para casa, mas nunca mais conseguimos identificar a passagem pela qual entramos na caverna do túmulo, como a batizamos, por mais que tentássemos. Muita gente não acreditou na história, mas não havia razão para termos mentido. Alguns diziam que tínhamos aspirado o gás estupefaciente evolado da rocha que isso havia nos levado a uma alucinação coletiva, mas ainda está bem presente em minhas memórias tudo que vi na escuridão da caverna. Por outro lado, a aventura me ajudou a me aproximar de Daisy, e hoje somos lados da mesma moeda. O professor foi nosso padrinho de casamento.
Parecia que ia tudo bem para todos nós;
Porém, um noite, senti um tremor estranho. E começou a dar tudo errado. No fundo, desde de o inicio eu sabia : Estávamos amaldiçoados.

-FIM -